PERFIL: O pintor de mil telas

Publicado por :Carla Letícia - carla@adororevista.com.br
03/1/2019

Paulo Oliveira Bastos, o Paulo Tattoo, se revela um artista de muitas vertentes: “a diferença entre a pintura e a tatuagem é a tela” 

 

À época do vestibular, naquela difícil escolha de curso e profissão, ouvi muitas vezes uma frase de Confúcio da qual sempre me lembrei. Daquelas que a gente coloca no status das redes sociais ou como legenda de uma foto no primeiro emprego. “Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida”. Embora tenha procurado segui-la, com meus saudosos 18 anos de idade, acabei me esquecendo dela no decorrer da vida. Até conhecer alguém que nunca pareceu trabalhar.

Eram 13h30 de uma tarde de dezembro. Sentada no confortável sofá do estúdio de tatuagem e body piercing, localizado no centro histórico de Barreiras, conheço de verdade o cara cujo sobrenome podia ser mesmo aquele escrito na fachada: Tattoo. De semblante tranquilo e longe de formalidades, ele me atende com a calma e a paciência com a qual recebe cada cliente, como pude comprovar assim que uma delas chegou, uma hora mais tarde.

Paulo Tattoo: um pintor de mil telas (Foto: Carla Letícia/Revista Adoro)

Há exatos 20 anos o Paulo Oliveira Bastos virava Paulo Tattoo. Foi quando fez sua primeira arte em tela humana. “Foi numa amiga minha. Depois de um ano, saí do emprego que tinha, uma fábrica de sofás, e comecei só a tatuar em casa”, conta o pintor. Esta é a sua verdadeira profissão. Um artista de diferentes telas, que se dedica a traduzir sentimentos e preservar emoções na mais duradoura plataforma que pôde encontrar: o corpo humano.

Papel e pele

A primeira plataforma de ação foi o papel, aos três anos de idade, quando ele fazia desenhos da dupla Zezé Di Camargo e Luciano para a mãe. “Ela era muito fã deles, na época, e eu ficava desenhando pra ela. Ela vibrava. Tem vários colegas que hoje me encontram e falam a mesma coisa, lembram de mim desenhando na sala de aula”, conta ele, hoje com 35 anos. Não havia outro caminho que não fosse o da arte.

Até conseguir mais informações para começar a tatuar, que só chegavam em Barreiras por revistas de fora e viajantes, Paulo foi autodidata nos quadros e no papel. A inspiração para os desenhos autorais vem da natureza, dos ídolos e dos desejos mais importantes para o cliente, sua maior prioridade. “A única diferença entre a pintura e a tatuagem é a tela!”, conta ele, com cara de quem já estava pensando no próximo desenho.

O processo ainda é como pintar, sua maior paixão. Porém, agora há critérios a serem cumpridos. Se você for tatuar por impulso, estiver bêbado ou escolher desenhos como armas ou suásticas, por exemplo, não conseguirá ser atendido por Paulo. “Tem alguns estilos de desenho que também não faço. Já me recusei a fazer muita coisa, isso acontece muito”, relata.

Apesar da firmeza de Paulo, fui embora imaginando se alguém que entra naquele estúdio saia sem ser seu amigo.  O diálogo, honesto e indispensável, é o maior diferencial do artista: “Isso faz a pessoa ter mais confiança. A escolha de fazer a primeira tatuagem, por exemplo, é uma decisão bem forte na vida de alguém, tem muita coisa que passa na cabeça. Eu tento respeitar esse momento e fazer o melhor que eu puder”.

Hora da ação: a arte da tatuagem

O melhor que ele faz, porém, é para suas duas filhas, de três anos. Apaixonado pelas garotas, o ouço comentar, com a sua cliente-amiga das 14:30 h, que seu sonho é um dia tatuar uma delas. Sem surpresa. “Antigamente eu queria ser o melhor tatuador do mundo. Hoje eu sei que isso não existe, mas a meta hoje é ser melhor do que fui ontem, nunca desperdiçar um dia sem aprender pelo menos um pouquinho”, diz ele.

É, talvez o segredo de não trabalhar nenhum dia seja, justamente, trabalhar em todos eles.