AGRO: Produção de orgânicos na Bahia cresce 30% ao ano

Um cuidado muito grande com a terra. Adubação a base de cinzas, esterco bovino ou de aves. Proteção com barreiras de vento para evitar agrotóxicos que podem ser trazidos de outras propriedades. Tudo cultivado de maneira limpa, sem o uso de defensivo químico. Essa é a realidade de produtores que investem nos orgânicos.

No último final de semana, Salvador sediou o III Encontro Ampliado da Rede de Agroecologia Povos da Mata,no Centro de Formação da Secretaria de Desenvolvimento Rural, em Itapuã.

Na oportunidade, foi lançada a 19ª Campanha Anual de Promoção do Produto Orgânico.

“Quando fazemos um cultivo limpo, o que define isso é a defesa da vida em tudo. O solo é vivo, o microrganismo que está ali também. É uma satisfação produzir saúde”, afirma o agricultor Alberto Cordeiro que, com outros pequenos produtores, trouxe seus produtos para a Feira de Saberes e Sabores, promovida pela Rede Agroecologia Povos da Mata.

Na propriedade do agricultor Alberto , o carro-chefe é a cenoura. Mas ele diversifica a plantação com o cultivo de beterraba, repolho, cebola, limão, berinjela e tomate.

“Primeiro a gente vende para a comunidade, depois repassa para o mercado e aí, via entreposto, escoa a nossa produção para Salvador e o município de Ilhéus também”, conta.

Tanto a produção baiana, quanto o aumento do mercado consumidor cresceram juntos, ao mesmo tempo, como destaca o presidente da Rede de Agroecologia Povos da Mata, Hercules Saar. No pós-pandemia, a demanda de produção orgânica chegou a alcançar um incremento de 30% ao ano.

“Às vezes, a conscientização vem pelo sofrimento, sobretudo, com o choque de saúde que a pandemia provocou. Com referência a pós-pandemia, percebemos que essa preocupação desencadeou numa procura muito maior por ter um alimento mais saudável e com isso, ter mais saúde. Houve um crescimento, não só da produção, mas também nesse consumo”, analisa.

A rede atualmente conta com 1056 agricultores certificados, 24 agroindústrias, 12 feiras de produtos orgânicos e 02 entrepostos e está presente em 19 territórios de Identidade na Bahia, em três biomas distintos – Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado.

“Nós somos a segunda maior rede do país. Em plena pandemia, conseguimos fornecer 5 mil cestas de alimentos de 25 kg em 30 dias. Isso dá a dimensão do tamanho da produção orgânica que nós temos. Os nossos polos estão dentro das pequenas feiras municipais, entre eles, Irecê, entre eles pequenos entrepostos comerciais daqui de Salvador, no sul do estado, Ilhéus, Itabuna, Camamu”.

Carlânia Nunes é agricultora do município de Irecê. Ela produz coentro, alface, rúcula e todo tipo de hortaliças, além de frutíferas, como a laranja. “Planto de tudo um pouco. Produzir um produto orgânico é algo muito importante para mim. Além de alimentar minha família, a gente pensa também no outro e leva esse alimento saudável para outras famílias”.

A consciência em torno do orgânico já avançou muito, como complementa a agricultora: “Conseguimos avançar, sim, mas acredito que precisamos ir mais longe. Mais gente precisa saber dos riscos dos agrotóxicos para a saúde. É necessária uma maior divulgação, trazer o público consumidor para dentro das feiras”, opina.

Valor agregado

Valdemar Martins é mais um produtor que faz parte da rede. No município de Mutuípe, ele planta cacau, banana, aipim, inhame e limão. “Muitas vezes, um produto orgânico é R$ 3 mais caro, uma diferença pequena e o cliente acaba optando por outro. Só que essa diferença vai ser compensada na saúde no futuro. Com o agrotóxico, a planta até cresce, mas sem sabor. É o momento de todos ajudarem a fortalecer os orgânicos, valorizar mais isso, pensar mesmo na saúde. Ter essa consciência”.

“Muitas vezes, um produto orgânico é R$ 3 mais caro, uma diferença pequena,  e o cliente acaba optando por outro. Só que essa diferença vai ser compensada na saúde lá na frente”

A questão do valor agregado pode parecer um gargalo para a expansão dos orgânicos, porém, o presidente da Rede de Agroecologia Povos da Mata Hercules Saar destaca que o problema, na verdade, está na cadeia de comercialização: “Em questão de valores, por que o produto orgânico tem um valor maior? Isso acontece, geralmente, quando ele não vai do agricultor ao consumidor. Então, essa cadeia de comercialização é o grande problema que encarece. O atravessador compra barato e vende caro. Fica insatisfeito o consumidor e o pequeno agricultor e agricultora, também”.

A saída está na oferta de mais espaços voltados para essa comercialização direta entre o pequeno produtor e o consumidor. “Nós queremos que o alimento produzido dentro da rede possa sair diretamente do agricultor para o consumidor sem esses atravessadores. Então, o incentivo que a gente vem fazendo dentro dos municípios é que se façam feiras orgânicas só de produtos orgânicos”, ressalta.

Espaços fixos e não sazonais, que possam fortalecer os circuitos de comercialização. “Locais onde esse produtor possa vender independentemente de uma ação de feira ou não. O que acontece é que o produtor, às vezes, ele traz produtos lá da roça dele para a cidade, se ele não vender, perde. A perda é muito grande por falta de estrutura, de câmera fria. Precisamos ter revendas mesmo, não só ser a feira de um dia, mas um entreposto de comercialização de produtos da rede”.

Da roça para a mesa, a prática de preço é justa, como defende Saar. “Quando a comercialização é feita diretamente com o produtor, nós temos feiras em que o produto é taxado em qualquer barraca. Na feira de Irecê, por exemplo, o tomate vai ter o mesmo preço, R$ 5. O tomate no supermercado com química, cheio de veneno, está R$ 9, R$ 10. Na feira continua R$ 5 o quilo, porque foi feito um cálculo de preço justo do agricultor para a sua produção. O atravessador – por ser orgânico e certificado – vai sempre vender mais caro”.

Mateus Fernandes é produtor do Povoado de Lagoa Funda, no município de Bairro Alto. Ele faz parte do Núcleo raízes do Sertão com a produção de verduras e também de produtos agridoces certificados, entre eles, as geleias, temperos e frutas desidratadas. “É muito importante se consumir um produto limpo, orgânico. Você vai gastar menos no futuro, ter uma velhice saudável. Comprar algo onde ele sabe a origem, o produtor, dar valor a essas iniciativas. Essa divulgação de quem já consome também é fundamental. Usar o boca a boca, levar essa mensagem mais longe”.

ENTENDA A DIFERENÇA

. Orgânicos São reconhecidos pela certificação com o selo Produto Orgânico Brasil e produzidos dentro de um sistema orgânico ou extrativista sustentável sem o uso de organismos geneticamente modificados nem químicos sintéticos.

. Agroecológicos São livres de agrotóxicos e de origem em agricultura familiar.

. Hidropônicos São alimentos cultivados artificialmente em uma estufa, sem a utilização de terra.

. Convencionais A produção tem ênfase em larga escala e conta com a utilização de insumos e tecnologias agrícolas entre eles, os defensivos químicos.

Informações do Correio.
Foto: Freepik

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